Arrasto os pés pelas escadas e sinto o buraco negro gigantesco, resultado da conversa fria, a formar-se na cabeça. Fungo, elas lá vêm. No último degrau vai ficar a marca da confusão pequenina que o negro ainda não apagou. Naquele espaço partilhado não se pode partilhar mais que o necessário, há que resistir a grandes demonstrações dos sentidos. Fungo, aquele barulho com o nariz que os miúdos fazem quando estão constipados ou quando querem coisas que estão na prateleira mais alta. Acabam as escadas, o tapete cola-se aos chinelos e faz-se num novelo que chuto para longe, para trás. A porta ficou encostada e o candeeiro aceso, o ar fresco da climatização agita-se numa onda quando a porta fecha, suave, nas minhas costas. Um último fungar, enquanto deixo cair os papéis agrafados da minha organização, de todo um curriculum a pedir estudos internacionais. O buraco negro dissipa, devolve-me tudo o que levei até ao primeiro degrau da escada de madeira, que estala cada vez mais. Escorrego para o cadeirão cinzento, enrolo-me como um bicho e fico com a certeza de ter feito asneira. Aquele arrependimento imediato de quem põe a esperança no sítio errado. Um engano traiçoeiro, certeiro e que estava arrumado a um canto, entalado de esperança como uma ilha minúscula no meio do mar. Essa esperança vadia, quando foge sem pedir autorização, faz tudo desabar. A certeza do engano, a grande ilusão, essa é que custa. Há logo mais mil ideias pequeninas, sacanas, que correm a provar que tem razão, que bem avisaram. Depois imagens, caras conhecidas, que dizem "eu fico" e que dizem "para mim acabou, é o fim, Mariana". Tudo a mudar, tudo no mesmo sítio - e eu nunca percebo estas coisas, estas pessoas e eu.
sexta-feira, 22 de junho de 2012
domingo, 13 de maio de 2012
Mais encanto.
Dizem que é na hora
da despedida que Coimbra tem mais encanto. Que há, nesta cidade, qualquer coisa
que não volta, que voou. Que há um rio que tem todo o brilho da cidade, há
capas aos ombros e saudades nos olhos. Dizem, disseram-nos durante três anos. Tentámos
acreditar, é verdade, aprendemos a dizer adeus e a viver com a saudade.
Aprendemos a conviver com os colegas, a que passámos a chamar amigos;
aprendemos a conviver com a cidade, a que passámos a chamar casa. E, quando
pensamos bem, são estas as duas lições que deviam valer mais.
Lembram-se do dia em que chegaram?
Eu tive medo, confesso. Recordo que havia muitas Capas e Batinas, que esperámos
debaixo de um sol muito quente e que alguém fez discursos que não fizeram
sentido. Recebemos t-shirts e hinos e fomos convocados para a Praxe. Éramos uns
miúdos, saídos do liceu, não sabíamos lidar com os power points acelerados do
Ensino Superior, com os exames em duas fases nem com os anfiteatros de madeira
que caem a pique até ao professor. Depois acabou o primeiro ano e pensámos que
era o fim, de tudo. Mas então vestimos de negro, traçámo-nos em abraços e em
famílias. Não era o fim, era só outro começo.
No ano passado, começámos a sonhar
com um Carro. Começámos também a perceber que não era tudo fácil, tivemos de
nos despedir de colegas que tinham sonhos iguais aos nossos – e ninguém nos
ensinou a fazer isso. As bolsas, as políticas, às vezes uma nova vida. Mas
ainda não foi o fim, ainda não acabou. Nas letras, passámos da teoria à
prática, pediam-nos notícias e noticiários. Trabalhos de grupo, apresentações
orais… e nós queríamos faltar às aulas, queríamos tanto ser rebeldes!
Trocávamos a noite pelo dia e íamos pelas ruas em grupos e em Trupes, às
cantigas e às tascas, à Alta e á Baixa. Jantares, Latada e Queima. E depois o
ciclo termina sempre com exames, uma espécie de corda ao pescoço como a que tem
o D. Dinis.
Mais um passo, pequeno, e já nos
chamam finalistas. Saltamos etapas porque Bolonha mandou. Está a acabar,
percebem? Acreditam? Agora é oficial, não somos os miúdos que chegaram a
Coimbra cheios de malas e de vontades. Somos os outros, os que deixam Coimbra
porque chega a hora. Os que vão querer voltar e não vão querer esquecer. Somos
o terceiro ano de Jornalismo, os fitados 2009/2012. Somos o “Inimigo Púbico”,
as Miguitas, os Rijos, as Erasmus, as Rosinhas e a Tertúlia que nunca existiu.
Somos o 27! Somos tudo o que não consigo (ou que não posso!) dizer nesta
página; as fotografias que levamos para recordar, o choro de uma balada, a
alegria das nossas festas e as lágrimas que enchem o rio. Por sermos assim, e
não apenas por estar a acabar, posso dizer, e sei que me acompanham: ainda bem
que eu entrei no meu ano!
Mariana Pardal
Presidente da
Comissão de Carro 09/12
P.s. Peço desculpa
por não mencionar cada um dos elementos desta Comissão, mas sinto que há que
destacar as tesoureiras Sílvia e Flaviana, pelo trabalho incansável, pelas
contas certas e pela disponibilidade total.
segunda-feira, 19 de março de 2012
Pretérito.
Encontrei uma caixa de cds velhos. "Escolhas Musicais de 2007", por exemplo, a abrir com uma faixa pavorosa do Luís Represas. E o meu vício também antigo de dar nomes como "Várias", "Várias 1" e "Várias 2" às colectâneas não autorizadas de músicas obtidas por meios duvidosos. Na pilha de pérolas resgatei o oficial dos Morangos com Açúcar, 3ª temporada, série de Verão - com o genérico do Ménito Ramos, um sonho. Pelo meio de outras capas não identificadas encontrei a Norah Jones, já dentro do carro. Que merda. Gastei 10€ em 'sem chumbo 95' para fazer piscinas na avenida, de rotunda em rotunda. Arriscando um fuga rápida até aos semáforos que levam à estrada da Figueira, recuando pela rua apertada no meio dos campos de arroz, com vista para o castelo. Foi uma noite triste, uma coisa estúpida que não queiras saber. Subi a ladeira e parei no parque do castelo, fiquei até um casal de pombos vir reclamar o espaço mal iluminado, propício e famoso para umas aventuras. Desci até à beira-rio, onde descobri indivíduos encasacados a trocar sinais de luzes e saquinhos de plástico. Merda. Já não se pode estar em lado nenhum. Estacionei no parque da Igreja, baixei o volume do rádio e consegui ouvir as senhoras do coro e a pianola fora de tempo, lenta, arrastada e enrolada com o eco das pedras. 9ª Estação, Jesus cai pela terceira vez. E cânticos, leituras que não se conseguem ouvir. E eu farta de cair, mais que três vezes, tenho uma habilidade natural (é um dom) para tropeçar. Coisas grandes, quedas intensas e de ficar com as costas de lado, incapaz de um braço ou de uma perna. Pior que isso, tu. Todos os modos verbais do pretérito, todas as Escolhas de 2007. Todos os pequenos sinais, o teu jeito de infiltração que ainda se esconde em caixas de cds velhos, como bombas não identificadas e prontas a rebentar. É como jogar ao Minesweeper, só que sempre. 24/7. E um grande silêncio, agora, uma inexistência absoluta. Daquelas limpezas que não se pode fazer nos computadores, porque tudo deixa rasto. Contigo não, nada. Se eu não soubesse, se não fossem os cds de outros anos lectivos, podia jurar que tinha sonhado. E que o mal das costas era só resultado de uma posição errada durante o sono. Se eu não soubesse, jurava que nunca tínhamos sido, que a música nunca tinha tocado.
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
senhor primeiro-ministro,
tenho o quarto todo desarrumado, sabe? E é um quarto bonito, não é muito espaçoso mas tem uma janela que dá para a rua e, para entrar, é logo a primeira porta à esquerda. Mesmo assim, deixei que o entulho crescesse como as silvas, tenho tudo espalhado por todo o lado. Às vezes, quando chega a sexta-feira já só um perito das minas e armadilhas consegue fazer o meio-metro que separa a cama da porta, ou o armário da secretária. As coisas estão todas perto umas das outras, é essa a única facilidade.
Isto aqui não é como em casa, aqui é uma balbúrdia. Lá estão os cobertores bem alinhados, com cores a condizer. As paredes branquinhas como se quer, a bater com os cortinados e os tapetes e os edredons. Se um tem riscas, o outro não pode ter. Aqui não, é tudo malhado, uns traços a bater nos outros. E lençóis daquela cor da escola básica (quando não se podia dizer vermelho) com mantas do FCP. O mural do facebook espetado na parede com post-its amarelos, mais uns posters fanados de um sítio qualquer.
A comédia que aqui tem lugar é de tal ordem que eu tremo toda quando a mãe estica a cabeça cá para dentro. Se ela visse, jesus! Fazia cá falta para me arrumar isto, nem que fosse só para me dar a ordem. Uma daquelas perguntas lixadas, a que eu nunca respondo. "Mariana, já arrumaste o teu quarto?". Caraças, ainda não.
Senhor ministro, olhe que a minha mãe faz falta ao país.
Isto aqui não é como em casa, aqui é uma balbúrdia. Lá estão os cobertores bem alinhados, com cores a condizer. As paredes branquinhas como se quer, a bater com os cortinados e os tapetes e os edredons. Se um tem riscas, o outro não pode ter. Aqui não, é tudo malhado, uns traços a bater nos outros. E lençóis daquela cor da escola básica (quando não se podia dizer vermelho) com mantas do FCP. O mural do facebook espetado na parede com post-its amarelos, mais uns posters fanados de um sítio qualquer.
A comédia que aqui tem lugar é de tal ordem que eu tremo toda quando a mãe estica a cabeça cá para dentro. Se ela visse, jesus! Fazia cá falta para me arrumar isto, nem que fosse só para me dar a ordem. Uma daquelas perguntas lixadas, a que eu nunca respondo. "Mariana, já arrumaste o teu quarto?". Caraças, ainda não.
Senhor ministro, olhe que a minha mãe faz falta ao país.
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A minha família é uma animação,
Neura
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
your mission, should you choose to accept it
Se ninguém ficar escandalizado, posso dizer que este blog nasceu de um ménage. Foi uma sex-party entre a necessidade de expressão, a falta de escrita do currículo escolar e a falta de tempo da minha vida de teen atarefada. Se hoje não escrevo com a mesma regularidade de há uns anos (obrigado por notarem) é porque o registo do "diário" deixou de me satisfazer. Aqui, passou-se do tempo das curtes às escondidas para as cenas de anel do dedo - ou fitinha no pulso, que significa o mesmo de uma maneira muito mais discreta. Além disso, esses três participantes partiram há muito para outras festinhas e deixaram de fazer sentido na vida deste puto, que se emancipou. O blog está mudado. Só se mantém as cores porque sempre fui melhor a brincar aos polícias e ladrões que aos designers e estilistas. Mais, agora tenho mesmo que escrever. E não é sobre pessoas que vi no autocarro. São textos grandes, maçadores, de mil-e-mil caracteres. É por isso que estou sem palavras para aqui. As que sobram dessas escrituras vou guardando numa caixinha (como o Pessoa guardava as pedras do caminho). A missão para essas palavras-rejeitadas é de imensa responsabilidade. Serei capaz de escrever um romance de 5.000€? Vi o filme do Cruise e ganhei um euro nas raspadinhas da Santa Casa, tudo parece possível.
domingo, 27 de novembro de 2011
ser fadista é ser português.
"Última hora: o fado já é património mundial. Decisão aprovada no comité intergovernamental da UNESCO"
Tenho um telefone com a mania que é ardina. Já anunciou as melhores e as piores notícias, nunca uma que me tenha feito chorar. Lancei a mão a peito - ainda me lembro de quando quase-morri na casa dos fados de Alfama. Depois passou-me o espanto, não ouvi ninguém a cantar. E ainda hoje de manhã trauteava as canoas do tejo com a avó, de pijama. Demorei-me no carro, a fazer recados para o almoço, com o cd da Amália. E agora, fim de dia, morro de amores e de vontade de estar naquela mesa do canto, com bacalhau, vinho e bom fado. O fado sempre foi património, foi desde que nasceu.
luzinhas que tremem, que lindo que está!
Ninguém consegue pelo 1º de Dezembro para estrear os enfeites de Natal. A Escola de Música também já está decorada!
» árvore de Natal e respectivo embrulho (nota: tem dois jogos de luzes, por se considerar estético ter um deles intermitente e outro fixo - nunca saberei porquê)
» lindíssimo centro de mesa que eu própria idealizei e produzi em cerca de 7 minutos (materiais: velas, bolas e ramos roubadas da árvora, fita de embrulho e base de cartão velho)
» presépio da sala de professores embutido nas estantes - e desculpem a desarrumação.
» pormenor, com a luz a piscar; materiais: papel, cartão, cola e caneta azul do quadro; tempo: 10 minutos;

» decidimos também decorar o pessoal docente, o próximo passo será enfeitar os alunos com fatos, orelhas e meias de duendes. será todo um concerto de Natal .. !
» árvore de Natal e respectivo embrulho (nota: tem dois jogos de luzes, por se considerar estético ter um deles intermitente e outro fixo - nunca saberei porquê)
» lindíssimo centro de mesa que eu própria idealizei e produzi em cerca de 7 minutos (materiais: velas, bolas e ramos roubadas da árvora, fita de embrulho e base de cartão velho)
» presépio da sala de professores embutido nas estantes - e desculpem a desarrumação.
» pormenor, com a luz a piscar; materiais: papel, cartão, cola e caneta azul do quadro; tempo: 10 minutos;
» decidimos também decorar o pessoal docente, o próximo passo será enfeitar os alunos com fatos, orelhas e meias de duendes. será todo um concerto de Natal .. !
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